Artigo publicado no Correio Braziliense-31/12/2015 – “A grama do vizinho se mudou (para dentro)

 

 

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Artigo: O exílio das borboletas – publicado no jornal Gazeta do Povo (Curitiba-PR) – 22/10/2015

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ARTIGO

O exílio das borboletas

  • 22/10/2015
  • Adriana Kortlandt-Grandin

Lemos nos jornais, atônitos, que uma política alemã foi esfaqueada dias atrás por motivos aparentemente “racistas”, vinculados à política de recepção de refugiados. A extrema-direita na Europa ganha adeptos, eleva a voz e parece esquecer que seus antepassados, até há bem pouco tempo, também se refugiaram. A estatística da Bundeskriminalamt (BKA, agência federal de investigações, uma espécie de FBI alemão) revela que em 2014 foram praticados 162 atos de violência contra centros de acolhimento a refugiados. Alguns centros foram parcialmente incendiados e símbolos nazistas foram grafitados nos muros.

Também na Alemanha, incontáveis pessoas se manifestam abertamente contra tendências xenófobas, artistas fazem campanha na tevê, usando camisetas com o neologismo Tolerismus – por uma cultura de tolerância –, cidadãos vão aos terminais ferroviários receber os refugiados com música, balões, alimentos, brinquedos e roupas. Algumas pessoas chegam mesmo a acolher refugiados em suas próprias casas. Há uma memória coletiva que se reacendeu, disse-me uma conhecida.

Um pequeno e simples impulso reverbera mais e mais em todas as possíveis direções. O resultado é imprevisto

Sou brasileira e moro na Alemanha. Aqui do lado de casa há uma escola cujo centro poliesportivo foi colocado à disposição para abrigar 450 refugiados. Na noite de 8 para 9 de setembro, bombas de fedor foram arremessadas contra a escola, veio a polícia, foi um corre-corre. Atualmente atos de suporte e de repulsa aos refugiados têm acontecido em várias cidades por toda a Europa. Todos temos acompanhado esta odisseia, o que nos faz pensar e agir.

Também participei de uma “comitiva de recepção”. Além das cenas já esperadas, a dos cartazes com corações bem grandes, welcome!, vi um que me deu o estalo: um jovem segurava um cartaz com a foto de um indiozinho yanomami, em que estava escrito: “somos todos yanomamis”. Não, não era brasileiro. Era nativo de Dortmund, cidade onde um grupo de quase 1,5 mil refugiados acabava de chegar. Ele me explicou que yanomami quer dizer “ser humano”. Que vergonha, eu não sabia!

O que se faz aqui reverbera ali. E rápido. É o “efeito borboleta”. Assim ficou conhecida a expressão da física moderna utilizada na Teoria do Caos. A ideia é plástica: um pequeno e simples impulso reverbera mais e mais em todas as possíveis direções. O resultado é imprevisto. Foi utilizada principalmente para o estudo do deslocamento de massas de ar. As ciências humanas tomaram essa ideia emprestada para ajudar a pensar movimentos sociais na atualidade. O “efeito borboleta” nas sociedades interconectadas – o poder de difusão de pequenos atos isolados, mas virtualmente conectados – é uma realidade que não se pode mais negar, nem frear. O jovem em Dortmund nunca viu um indígena na vida, mas acompanha seus problemas on-line e se engaja por eles, como se fossem seus vizinhos. Ele faz adeptos em seu círculo social.

Somos todos borboletas sapiens. Tudo passa por uma reflexão crítica sobre o significado de nossa presença nesta terra. Criticar, por sua vez, vem de Krinein, verbo grego que pressupõe uma ação dupla: julgar e decidir. Portanto, trata-se sempre de um julgamento e de uma decisão a partir do que aprendemos a ser. E isso reverbera eternamente!

Adriana Kortlandt-Grandin, psicóloga e escritora, é especialista em traumas causados por tragédias, em especial acidentes aéreos.

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/o-exilio-das-borboletas-41scjujhwmxlajo2g31c1w9nk

A página inteira- Eva, Fidelis e Hamurabi

Adriana no Correio 31 jan 2015 - Eva Fidelis e Hamurabi

Texto sobre infidelidade, no Correio Braziliense, publicado no sábado, 31 de janeiro de 2015 – “Eva Fidelis e Hamurabi”.

Adriana no Correio 31 jan 2015 - Eva Fidelis e Hamurabi

Sobre o lançamento de The Almagest em Nova Iorque, na Book Expo America – Jornal de Brasília – 22-07-2012

http://www.jornaldebrasilia.com.br/edicaodigital/pages/20120722-jornal/pdf/31.pdf

Linda surpresa!

Hoje, lembrei-me com extrema satisfação, de um comentário que meu agente literário, Marcos Linhares, recebeu recentemente sobre meu livro “Almagesto – contos anímicos”, feito pela escritora Ana Tereza Jardim, autora que admiro e cujo livro também de contos,” A cidade em fuga” (Rocco), eu recomendo. Ana  foi muito generosa. E esse tipo de iniciativa sempre nos estimula a continuar nossa jornada literária. Divido o comentário com vocês:

Olá Marcos,

Finalmente tive a oportunidade de ler o Almagesto, diga à Adriana que achei um trabalho extremamente original, ela cria um mundo próprio com imensa liberdade. É uma escritora de uma imaginação muito rica e que mergulha fundo no universo mágico que se propõe a tornar visível. Faço votos que ela continue a tecer esses contos e histórias femininos e que contam as aventuras da alma e da psiquê.
 um abraço, Ana Teresa”

Livrai-nos do mal? Texto publicado no Correio Braziliense – 30-06-2012- pág. 23

 

 *Por Adriana Kortlandt

 Não há teoria que dê conta do fenômeno humano. Tudo o que fazemos é uma tentativa de entender o que se esconde em cada um e, quando manifesto, ficamos perplexos. Perdemos o chão quando nossas crenças no ser humano se fragilizam com a banalização do ato de se apropriar e extinguir a vida de outrem, sem peso, sem dor, sem medida.

Ainda respiramos mais um crime hediondo que assombrou a nação, embora o fato de nosso país ocupar o 6º lugar no ranking mundial de violência seja em si hediondo.

Elize Matsunaga matou e esquartejou o esposo, colocando seu corpo em malas para facilitar sua eliminação e, de acordo com a mídia, não demostrou emoção ao relatar o ocorrido à polícia. De novo perguntas, todas legítimas, sobre como alguém pode fazer isto, e com a filha no quarto ao lado.

Como psicóloga, penso nas inúmeras abordagens psicopatológicas desenvolvidas ao longo de décadas, na tentativa de tentar captar o funcionamento da sombra humana – daquilo que repudiamos em nós mesmos, sem querer ter consciência – e quem sabe até facilitar a lida com ela. Surto psicótico, talvez? Total inconsciência de limites para a própria atuação em comunidade? Ação segundo modelos, afinal quantas vezes vemos isto em filmes e desde criança? Herança genética? Psicogenealógica? A lista de possibilidades se perde, porém este artigo não é para comentar as possíveis causas deste homicídio, bem como fornecer explicações teóricas sobre o oculto umbroso em nós. Há milênios tentamos isto…

Estou acompanhando as notícias sobre este crime ao mesmo tempo que observo outro fenômeno, coexistente. Além do fato em si há outro, talvez bem mais inquietante, por que implícito: nosso olhar buscando o mal. Independente de seu estado psíquico e de sua pena, o nome de Elize Matsunaga ficará na memória coletiva, como fria assassina. Se digitarmos seu nome na internet, veremos mais de trezentos mil resultados, postados em aproximadamente algumas semanas.

Quem se lembra de Hércules Oliveira? “Não tive tempo de chorar. Quero transformar dor em força para resgatar quem dividiu a vida comigo e com minha família”. Com estas palavras o pedreiro comentou seu engajamento – de fazer jus ao nome de herói grego – enquanto ajudava a resgatar vítimas da tragédia de Teresópolis do ano passado, e logo após ter perdido 25 parentes em um grande deslizamento. De sua casa sobrou uma única parede. Ele não virou capa de revista, sua história não foi filmada, que eu saiba, não ganhou nenhum prêmio, e seu nome é pouco citado na internet, que dirá em nossa memória!

De onde vem este interesse pelo sombrio (costumeiramente, no outro), que nos faz consumir com voracidade notícias sobre o mal, ao mesmo tempo em que o mote contemporâneo é a tal ‘qualidade de vida’? Será que nossa mente consegue digerir bem esta engolição de destrutividades? O aumento dos casos de transtornos de ansiedade em populações urbanas (síndrome do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo e de estresse pós-traumático) poderia também evidenciar uma indigestão no consumo dos desequilíbrios.

Para dar mais corpo a uma reflexão de complexidade ilimitável, criei um pequeno diálogo, colando frases de pessoas que, na minha opinião, se aventuraram a conhecer suas sombras. Talvez seja esta a grande aventura humana… As personagens são o escritor José Saramago, o compositor Juraildes da Cruz, o psiquiatra Carl Gustav Jung, e Madre Teresa de Calcutá.

Saramago: Veja bem Juraildes, sua poesia é bela, mas “através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

Juraildes da Cruz: Zé, “eu tentei fugir de mim, mas aonde eu ia eu tava, quanto mais me escondia, mais me encontrava. Tô pensando em tirar férias de mim, mas eu também quero ir… Só vou se minha sombra não for, se ela for, eu fico aqui.”

Jung: Para mim “não existe nenhuma dificuldade em minha vida que não seja eu mesmo”. “O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros”.

Juraildes da Cruz: Também acho. “Se correr o bicho pega, mas se limpar o bicho some. Tem que desembaraçar o novelo da vida do homem”.

Saramago: Mas, “o medo cega”, como disse a rapariga dos óculos escuros, no Ensaio sobre a Cegueira.

Madre Teresa: Eu só sei que “as palavras que não dão luz, aumentam a escuridão”.

 

Só nos resta ter coragem de Hércules para nos encontrarmos com nossa sombra, quem sabe até integrá-la em nossa luz, para nos livrarmos do mal?

 

*Adriana Kortlandt é terapeuta clínica e escritora, autora de Fios da Memória e Almagesto-contos anímicos. 

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