Saímos no Diário da Manhã, de Goiânia, (17-02-2012)

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A ciência dos pés descalços

* Adriana Kortlandt

     Sexta posição no PIB mundial e, segundo dados da ONU, apenas sete nações apresentam distribuição de renda pior do que a nossa: Colômbia, Bolívia, Honduras, África do Sul, Angola, Haiti e Comoros. No IDH, o Brasil tem progredido, porém sua posição geral, em apenas 84º lugar, ainda o exclui do grupo mais seleto. Temos coeficientes que nos catapultam para alturas e abismos, orgulho e vergonha: é a montanha russa brasileira num percurso cheio de números. A ideia desta crônica porém, é apresentar outra “medição” possível: a dos pés-descalços de Bunker Roy.

    O indiano Roy fundou nos anos 70 a Universidade dos Pés-descalcos, que ensina mulheres e homens do meio rural a tornarem-se dentistas, médicos, engenheiros solares, artesãos, tudo isso sem sair de suas aldeias. Inspirado pelo estilo de vida e trabalho de Mahatma Gandhi, o Barefoot College tem como objetivo resolver problemas nas comunidades rurais, equipando seu povo com as habilidades e conhecimento necessários para torná-las auto-suficientes e sustentáveis. É a única faculdade no mundo construída pelos pobres, para os pobres e gerida pelos pobres que ganham menos de US $1 por dia. Desde sua fundação mais de 20 Universidades Pés-Descalços foram iniciadas em mais de 13 estados indianos.

     Hoje em dia, ele fala sobre suas experiências em palestras públicas gratuitas em todo o mundo. ”(…) Descobri habilidades que as pessoas muito pobres possuem, os quais nunca são identificados, respeitados, e aplicados em grande escala”, sabiamente nos ensina. 

     A primeira construção foi feita em 1986, por arquitetos pés-descalços, que não sabem ler e escrever, construída com R$ 20,80 por metro quadrado. O jardim do campus, outrora um terreno arenoso foi replantado seguindo metodologia tradicional local, e floresceu a despeito do desencorajamento de engenheiros florestais. A vedação do telhado é uma mistura feita com açúcar mascavo, urens (planta local), e outros segredos exclusivos das mulheres que realizam este trabalho. O fato é que o telhado não vaza desde sua construção, em 1986. É a única faculdade eletrificada completamente com energia solar. E nos próximos 25 anos tudo deverá funcionar somente a partir dela. “Enquanto o sol brilhar não teremos problemas com eletricidade”, comenta o bem-humorado Bunker Roy. A comida também é feita com energia solar, e as pessoas que fabricam estes sofisticados fogões solares são mulheres iletradas. Povoados e mais povoados estão supridos com energia solar, instalada por pessoas simples e treinadas. A ideia já foi exportada para países vizinhos.

    Bunker Roy é o exemplo vivo de que soluções eficientes não precisam ser importadas, e sim criadas com o tesouro humano que se tem, tão vasto quanto numeroso. Ao conhecer seu trabalho, fiquei pensando em quantos pés-descalços temos em nosso país, ao nosso lado e nem sabemos. Miríades de soluções regionais estão espalhadas nas mãos de pessoas do mundo inteiro, e não concentradas nas de poucos detentores do poder. Elas não são espetaculares, ultra tecnológicas, nem milagreiras. Elas não excluem, dignificam o saber humano, proativo e regional. Fico sem fôlego ao pensar nas imensas dificuldades que Roy e seus cúmplices tiveram em todos esses anos e como seria, se aqui no Brasil nós nos inspirássemos neles… ou será que já existem e precisam ser apenas conhecidos? Vou terminar com palavras do Roy, que cita Gandhi : ”Primeiro, eles te ignoram, depois riem de você, depois brigam, e então, você vence“. 

Adriana Kortlandt é psicóloga clínica.

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